Opinião

Ficheiros secretos (Opinião)

Fernando Santos Marques. “Em Tomar há várias Teorias da Conspiração que poderiam tornar a cidade do Nabão a Twin Peaks do Ribatejo.”

“A verdade anda aí”. Outra vez.

Cerca de treze anos depois, regressou aos écrans da nossa televisão a série The X-Files: Ficheiros Secretos, que esteve no ar entre 1993 a 2002, em nove temporadas e mais de 200 episódios. Voltou a dupla David Duchovny e Gillian Anderson, mais conhecidos por Fox Mulder e Dana Scully. Dois agentes do FBI que investigam casos sem explicações plausíveis. O primeiro mais crente em teorias de conspiração, a segunda tentando efectuar uma abordagem mais racional (e/ou científica) dos casos. Também depois de dois filmes menores, datados de 1998 e 2008, retornou Walter Skinner, o director adjunto do Federal Bureau of Investigation – FBI e o “Smoking Man” que julgávamos morto.

Em pleno 2016 regressamos em força aos X-Files e às Teorias da Conspiração. Afinal, se o Patriot Act permitiu ao Governo americano aumentar de forma significativa a vigilância aos cidadãos e levou às célebres denúncias de Edward Snowden sobre os excessos cometidos pela NSA, a Julian Assange e à Wikileaks, o tema da conspiração regressou à ordem do dia. Como a moda das patilhas grandes. Ou da comida light. Multiplicando-se as histórias paranormais, e as Teorias da Conspiração.

As Teorias da Conspiração são as teses que explicam um acontecimento histórico ou actual como resultante de um plano secreto. Partindo geralmente de conspiradores poderosos ou sociedades secretas. Ou mesmo de governos sombrios.

Algumas destas Teorias são tão chocantes que o mais comum dos mortais tenderá a não acreditar nelas. Aliás, a maioria de nós sabe que grande parte destas conjunturas não são mais do que rumores sem fundamento. Lendas urbanas. Hoaxes. Muitas retiradas de livros de ficção científica da primeira metade do século XX. Como a dos Homens de Preto (“Men in Black”, também conhecidos por Majestic). Contudo, temos tendência em apreciar estes contos fantásticos, apesar da pouca ou nenhuma evidência, porque nos ajudam a reflectir. Ou melhor, a conjecturar. Se a lei das probabilidades favorece a hipótese de não estarmos sós no universo, porque não imaginar contactos imediatos ou mesmo abduções por alienígenas? Afinal, já a Bíblia falava que alguns anjos se teriam misturado com filhos de Adão e Eva… E a mitologia clássica, nomeadamente a grega, mas também a sua sucedânea romana, está carregada de referências paranormais.

Uma das Teorias da Conspiração mais atual refere que o aquecimento global é uma farsa, apesar de se intensificarem fenómenos de precipitação e de seca extremas, de diminuição da espessura das calotes polares e de subida do nível médio do mar. Outra Teoria refere que a Terra é oca, abarcando vida inteligente no seu interior. Outra refere que o vírus da SIDA foi criado em laboratório, quiçá se pelo Clube de Bilderberg, e que tal como a fluoretação da água faz parte de uma Nova Ordem Mundial. Ou então que a Princesa Diana foi assassinada, que Elvis Presley encenou a sua própria morte, ou que Paul McCartney morreu há muito tempo, sendo substituído por um sósia em 1966, logo após o lançamento do álbum “Revolver”. Apoiando-se para tal na letra do tema A Day In The Life…

Existe também uma Teoria, que cada dia ganha mais adeptos, que refere a existência de uma sociedade de elite que conspira à escala global para dominar o mundo: os Illuminati. Outros juram que estamos nas mãos de uma conspiração Judaico-Maçónica-Comunista mundial. Esses “poderosos” usariam webcams em telemóveis, computadores e televisão para nos espionar.

Mas há mais. Temos Teorias que defendem que os atentados de 11 de setembro foram planeados pelo próprio governo dos EUA e por membros da Skull and Bones. E que os atentados de 7 de julho de 2005 em Londres foram falsos. Também falso seria William Shakespeare, que corresponderia a um punhado de escritores ingleses de primeira linha.

Vários amantes destas Teorias defendem a existência de vida em Marte. Enquanto outros que o Homem jamais pisou a superfície lunar. Vários advogam ainda que o terramoto e tsunami do Oceano Índico de 2004 teria sido causado por testes nucleares israel-americanos.

Há também quem defenda a veracidade do Código Da Vinci, livro de ficção que granjeou sucesso a Dan Brown baseando-se em rumores sobre uma relação entre Jesus Cristo e Maria Madalena.

Em suma, “the truth is out there…” e a imaginação também saiu à rua. Hoje como ontem.

Em Tomar também há várias Teorias da Conspiração que poderiam tornar a cidade do Nabão a Twin Peaks do Ribatejo. Sendo que a mais antiga é a que refere que os Templários têm condicionado a cidade e a sua evolução. Social e economicamente.

Mas há outras cabalas, com mais ou menos adeptos e com maior ou menor fundamentação. Desde a existência de uma base de OVNIs algures na freguesia da Serra, até um complot para a perda de influência da cidade de Gualdim Pais no contexto nacional, que terá começado com a desindustrialização a partir do último quartel do século XX e que foi agravada posteriormente por uma continuada perda de valências no Hospital, no Quartel de Infantaria, no Politécnico, etc. Há aliás quem advogue uma substituição do peso social/religioso de Tomar por Fátima após um acordo secreto entre a Igreja Católica e a Maçonaria.

Segundo alguns entusiastas destas Teorias haverá também um mitológico monstro que se esconde nas águas da albufeira do Castelo do Bode, por vezes complementada com a existência de crocodilos e piranhas na mesma massa de água. Outros falam das reuniões mensais de lobisomens na Mata dos Sete Montes. Ou de animais sobrenaturais que habitam nos túneis que supostamente ligam a Igreja de Santa Maria do Olival ao arruinado Convento de Santa Iria. Ou ainda as grutas e subterrâneos cársicos que estarão sobre o Castelo dos Templários e que conterão tesouros valiosos. Ou mesmo o próprio Tesouro dos Templários.

Haja imaginação que a ficção não terá limite. Tão pouco as profecias apocalípticas. Afinal, o sonho comanda a vida. E por vezes as justificações sobrenaturais, sobre assuntos tidos por sensíveis, baseadas em fontes anónimas e informações ditas “confidenciais”, constituem a melhor desculpa para a nossa inépcia e conformismo.

Enfim, dizem que a “verdade anda aí”. Outra vez…

Fernando Santos Marques
Colunista da Tomar TV

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