Opinião

Gente Resiliente (Ou “Ai Aguenta, Aguenta!”) (Opinião)

Fernando Santos Marques. “Gosto do termo ‘resiliência’. É, aparentemente, positivista.”

Antes de mais uma declaração de intenções: Gosto do termo “resiliência”. É, aparentemente, positivista. Arredondado e curto. Parece simultaneamente flexível e sólido. E como eu, milhões por este mundo fora assimilaram a palavra no seu quotidiano. Mas nem sempre foi assim.

Inicialmente, nos idos anos 60 e 70 do século passado, o termo “resiliência” [1] estava associada à definição dada pela ciência física, sendo um conceito referente à “propriedade de que são dotados alguns sub-materiais, de acumular energia, quando exigidos ou submetidos a stress e sem ocorrer ruptura[2]. Sendo que após a tensão terminar poderá ou não haver uma deformação residual causada pela histerese [3] do material – como um elástico ou uma vara de salto em altura, que se verga até um certo limite sem se quebrar e depois retorna à forma original dissipando a energia acumulada e lançando, no caso da vara, o atleta para o alto, ultrapassando o sarrafo (ou barra) [4] .

Posteriormente, no final dos anos 80, o mesmo termo já se tinha deslocado dessa ideia original do mundo da engenharia e apresentava-se como um conceito da psicologia, caracterizado pela capacidade de ser flexível diante da adversidade. Quiçá como dois cônjuges num casamento de muitos anos.

Mais recentemente, nas últimas duas décadas, o termo “resiliência” entrou definitivamente na moda, vindo a representar toda a capacidade de ser flexível ao atribuir novos significados aos factos e que pode ser desenvolvida por todos os seres humanos. Assim, “resiliência” banalizou-se e passou a ser tão simplesmente a capacidade que temos (uns mais do que outros), em ser flexíveis nos momentos em que estamos perante dificuldades e/ou adversidades. E essa dita “flexibilidade” será construída por meio de um conjunto de crenças que possibilitam ultrapassar os “empecilhos” e/ou pedras que nos surgem ao longo da vida e, simultaneamente, prosperar rumo a um futuro cor-de-rosa. Leia-se pleno de sucesso.

Consequente e repentinamente, passamos a ter “resiliência” para a direita, “resiliência” para a esquerda. Passamos a ter “resiliência” nos Relatórios e Contas das empresas, nos Orçamentos de Estado, nos folhetos promocionais do supermercado, nas cartas de amor,… E o termo passou a perseguir-nos como uma virose. Sendo usado (e abusado) por toda a gente que aspira ao sucesso. Sejam eles políticos, economistas, treinadores de futebol, advogados ou jornalistas impreparados.

Por exemplo, os sociólogos ampliaram o conceito, passando a estudar a “resiliência” nas organizações e sobretudo em termos de gestão de empresas. Neste campo, ela consiste numa tomada de decisão quando uma organização se depara com um contexto algo adverso, entre a tensão do ambiente envolvente e a vontade de vencer. Essas decisões propiciam forças na liderança da organização para enfrentar a adversidade. Nesta linha de raciocínio, o brasileiro George Barbosa [5] propôs que se poderia considerar a “resiliência” como uma combinação de fatores que propiciam ao ser humano condições para enfrentar e superar problemas e adversidades. Ou seja, nada de novo e com que os portugueses não estejam familiarizados. Afinal eles muito têm aguentado. E continuam a aguentar. Mesmo quando o carregam. Repetidamente. Como um “burro de carga”. E ainda lhe chamam “piegas” ou “mariquinhas”!

Entretanto os psicólogos, os verdadeiros e não os que consomem avidamente os episódios da série televisiva “Terapia”, estranham… e resmungam: onde é que fica a “psicologia positiva” em tudo isto?… Afinal o que resta daquela psicologia que enfatiza os aspectos mais “virtuosos” do homem? … ao invés de centrar a intervenção desta ciência numa prática orientada para a compreensão e o tratamento de patologias, com foco no indivíduo e na família. É que “resiliência”, quando aplicada em indivíduos, seria na essência uma característica psicológica, definida como a capacidade de um sujeito em lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão em situações adversas (choque, stress, etc). E tudo isto sem entrar em surto psicológico [6].

A “resiliência” não é um veículo todo-o-terreno, como os novos 4×4 da Range Rover, embora características pessoais possam contribuir para uma “adaptação positiva a adversidades[7]. A “resiliência” de um indivíduo dependerá da interação de sistemas adaptativos complexos, como o círculo social, família, cultura, entre outros. Alguns pesquisadores salientam mesmo que a “resiliência” pode apresentar-se em vários domínios da vida de uma pessoa (saúde, escola, trabalho, etc) e variar ao longo do tempo [8]. Os Tomarenses, que vivem no umbigo de Portugal (geograficamente falando) ou do mundo (segundo Umberto Eco), mas que não têm o rei na barriga, conhecem bem este fenómeno. Pois ciclicamente têm passado por períodos de adaptação forçada, e onde a flexibilidade acaba revelando-se uma virtude.

Em Dezembro último, o New York Times Magazine publicou um ensaio do crítico literário Parul Sehgal, intitulado “The Profound Emptiness of ‘Resilience’”, algo como «O profundo vazio da “Resiliência”», onde destaca que a palavra é agora usada abusivamente nas mais variadas situações, e muitas vezes truncando e deturpando o seu verdadeiro sentido ao vinculá-la a conceitos mais vagos como “personagem”. Contudo a “resiliência” não tem de ser um conceito vago ou vazio. E se é verdade que nos últimos anos temos usado o termo de forma descuidada, a generalização desleixada não pode significar que a mesma não tenha um significado preciso. E que não tem a ver com “sair da nossa área de conforto”, seja ela o sofá dos pais, um cargo na Câmara Municipal ou terminar a Escola Secundária. É que afinal, a capacidade de ser flexível diante da adversidade é característica de gente inconformada, … ou insatisfeita. Mas nunca de gente indignada, desolada, injuriada, revoltada, irritada, enraivecida, entabacada, retovada…

 

[1] – Pensa-se que tenha sido o cientista inglês Thomas Young, professor de filosofia natural e física do Royal Institution, o primeiro a usar este termo. Terá acontecido em 1807, quando estudava a relação entre a tensão e a deformação de barras metálicas.

[2] – Definição também constante na “insuspeita” Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Resili%C3%AAncia

[3]Histerese é a tendência de um material (ou sistema) de conservar suas propriedades na ausência do estímulo que as gerou. É oriundo de uma palavra grega que significa atraso. Para a Enciclopédia Médica Moraes Amato, a Resistência de Materiais biológicos representa o tempo que um material demora para retornar à sua dimensão inicial quando o esforço externo é retirado e o material ainda se encontra no regime elástico. Para os Materiais biológicos pulsantes, esse tempo deverá ser o menor possível; pois, se assim não for, se a cada nova deformação ainda restar um resíduo da anterior, após algumas pulsações o material romper-se-ia por um fenômeno denominado fadiga.

[4]Resiliência para a Física será, portanto, a capacidade de um material voltar ao seu estado normal depois de ter sofrido tensão.

[5] – BARBOSA, George. S. “Resiliência em professores do ensino fundamental de 5ª a 8ª Série: Validação e aplicação do questionário do índice de Resiliência: Adultos Reivich-Shatté/Barbosa”. Tese de Doutoramento em Psicologia Clínica. São Paulo: Pontifica Universidade Católica, 2006.

[6]Surto Psicológico ou Psicótico consiste num episódio de desorganização da representação da realidade, desencadeado perante uma vivência que parte dos recursos representativos possuídos pelo indivíduo. Estes surtos são comuns na esquizofrenia e podem ocorrer na fase maníaca aguda do transtorno bipolar. Também podem ser desencadeados por substâncias psicoativas, como álcool, marijuana, anfetaminas, cocaína, etc. (segundo definição também constante na Wikipédia: https://pt.wikipedia.org/wiki/Surto_psic%C3%B3tico).

[7] – Masten, A. S. (2014). “Global Perspectives on Resilience in Children and Youth”. Child Development, 85(1), 6-20.

[8] – Southwick, S. M., Bonanno, G. A., Masten, A. S., Panter-Brick, C., & Yehuda, R. (2014). “Resilience definitions, theory and challeges: interdisciplinary perspectives”. European Journal of Psychotraumatology, 5, 1-14.

 

Fernando Santos Marques
Colunista da Tomar TV

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