Opinião

Tomar, cidade invisível (Opinião)

Fernando Santos Marques. “Tomar é uma cidade onde ainda se respira e se teima em construir o futuro.”

Felizmente Tomar (ainda) não é uma “cidade invisível”! … Nem deserta. Tomar é uma cidade onde ainda se respira e se teima em construir o futuro. Podendo aspirar a ser uma “cidade do futuro”. Uma cidade mais inteligente, mais sustentável e mais moderna. Mas não uma “cidade moderna” como o Dubai, ou outras megalópoles cinematográficas, onde a designação “cidade” é por si sinónimo de riqueza e ostentação. Apesar de, ao longo da História Universal, as urbes tenham sempre competido pela opulência dos seus espaços físicos. Numa devoção ao deus ouro. Tomar pode ser uma cidade de futuro. E sendo portanto uma cidade viva, não deverá ser considerada uma “cidade invisível”.

Neste ponto, convém salientar que, se “brinco” com seriedade com um dos livros que mais me marcou, de Italo Calvino, é porque continuo a gostar de homenagear os que mais me influenciaram. E este livro, que tem como personagens centrais o veneziano Marco Polo, mercador e diplomata, e o imperador mongol Kublai Khan, fundador da dinastia Yuan, inspira-me sobremaneira. Porque é um livro de viagens, mas também um livro de ficção, enquadrado no que se convencionou intitular de “realismo mágico”. E porque é um livro que nos mente com agrado.

O livro, publicado pela primeira vez em 1972, é um portento de virtuose narrativa, onde, o viajante Marco Pólo revela ao doente imperador Kublai Khan a vastidão do seu Império, ao apresentar-lhe cinquenta e cinco cidades com nome de mulher, arrumadas por tema: memória, desejo, sinais, trocas, céu, mortos, etc. Naquilo que poderemos considerar uma revisitação moderna de “As Mil e Uma Noites”.

As cidades do atlas de Marco Pólo não são ecocidades, embora algumas aparentem ser cidades sustentáveis. Mas são cidades fantásticas. Contudo, o mais fantástico do livro, é que o leitor reinterpreta cada urbe de maneira diferente. Como se ao invés de um livro estivéssemos a contemplar um quadro abstracionista, surgindo das experiências mais vanguardas da pintura europeia. De Kandinsky ou Mondrian. E por isso é um livro marcantemente pessoal. Onde cada leitor contribui com a própria vivência para um quadro em construção. De um mundo quase unipessoal e impossível de mapear.

E naquele livro de utopias várias, não há cidades modernas. Como a recém-inaugurada “cidade do futebol”, ali para os lados do Jamor (Oeiras). Ou a “cidade do rock”, em Chelas. Tão pouco encontramos a “cidade templária”, a “cidade do granito” ou a “cidade do gótico”. Mas há esperança, como na cidade de Eutropia. Pois as cidades são encaradas como sistemas vivos que necessitam de revitalização: sol, água e adubo. E também terra para crescerem.

Tenho para mim que “Cidade Invisível” é um livro de viagens que se constrói no imaginário do leitor. De cada leitor. E isso é invulgar, pois estamos mais habituados a uma visão fotográfica das cidades. Acresce que, pessoalmente, sempre imaginei as cidades de Calvino como cidades do médio oriente, projetando cores em território dos tártaros. E que, ao idêntico de Dubai (na atualidade), tendem a abafar tudo em seu redor. Erguendo-se de uma vizinhança que se afunda nas areias. E no deserto.

São as cidades a alastrar como um vírus. Mesmo na Europa, a concentração de pessoas nas grandes urbes já ultrapassa os ¾. O que tem tornado das cidades o motor da economia, uma economia de consumo que produz para se consumir e gastar na cidade. E onde o resto tende a ser encarado como paisagem. Ou reserva ecológica.

No mesmo ano em que se comemoram 500 anos sobre a edição da sociedade perfeita, tal como imaginada pelo inglês Thomas More, na ilha do livro “Utopia”, encontramos um desejo de progresso dos homens nas diferenças das cidades invisíveis de Calvino. Quiçá um elemento de contacto com o nosso ideal de civilização?

Mas poderia ser “cidades do amor (ou da luz e do glamour), como Paris. Ou cidade da paz, como Genebra ou Jerusalém. Ou mesmo “a cidade de Deus” de Santo Agostinho.

Tomar tem tudo para ser uma grande cidade. Imaginada por quem nela vive. E interpretada por quem ela ama.
E como as cidades de Calvino, Tomar será tudo o que o leitor quiser. E o que nós sonharmos. Pois malogrado o presente, e os ventos que teimam em não soprar de feição, Tomar ainda tem muito a dar. E terá com toda a certeza futuro. Bastará não baixarmos os braços, evitando contribuir para que o desânimo possa passar de desígnio nacional a local.

Dizem que o futuro começa hoje. Mas como diz Leonel Neves num poema que ficou célebre na voz (e na música) de Luiz Goes, é preciso acreditar.

“É preciso acreditar.
Que esta chuva que nos molha,
é um bem para se guardar.
Que há sempre terra que colha,
um ribeiro a despertar …
para um pão por despertar!”

Em resumo, felizmente que Tomar (ainda) não é uma “cidade invisível”! … Mas urge despertar esta cidade “semi-adormecida”. Retirá-la da penumbra onde parece estar mergulhada e fazê-la regressar ao espectro visível.

[Título do artigo retirado de um livro de Italo Calvino, “As Cidades Invisíveis”.]

[Italo Calvino nasceu em Santiago de las Vegas (Cuba) no dia 15 de outubro do ano de 1923. Apesar de ter nascido em Cuba, sua família retornou à Itália pouco tempo depois de Ítalo ter nascido. Calvino tem sido considerado um dos mais influentes autores italianos no século XX. O escritor fez parte da resistência anti-Mussolini na época da Segunda Guerra Mundial e foi militante do Partido Comunista Italiano até 1956. Um ano depois, desvincula-se do partido, deixando uma carta que ficou famosa. Faleceu em Siena (Itália) no dia 19 de setembro de 1985.]

Fernando Santos Marques
Colunista da Tomar TV

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