Opinião

Brincar para aprender a ser (Opinião)

Graça Costa. “Não posso aceitar que vivamos numa sociedade em que as nossas crianças sejam dopadas só porque os adultos não encontram outra forma de as ‘sossegar’.”

Um destes dias “choquei” com uma notícia, quem não sendo totalmente inesperada, conseguiu causar-me uma enorme apreensão e desde esse dia tenho procurado mais informação, quer para me esclarecer, quer para poder consolidar a minha opinião de forma consistente. Entre outras coisas, a dita notícia dava conta de que “As crianças portuguesas até aos 14 anos de idade consumiram, no ano de 2015, 5 milhões de doses de metilfenidato, um psicofármaco para tratar a hiperactividade e o défice de atenção.”

Confesso que esta coisa do PHDA (Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção) sempre me preocupou e a preocupação cresceu a partir do momento em que, como mãe e encarregada de educação, fazendo quase sempre parte dos conselhos de turma como representante dos pais/educadores, comecei a perceber a quantidade de crianças e jovens que apareciam com esse diagnóstico, bem como o tipo de tratamento de que eram alvo. Os meus filhos são já adultos e se, à data, aquelas questões já me incomodavam pela ligeireza das abordagens, com o passar dos anos e conversando com colegas que têm agora filhos pequenos, reforcei o meu receio, que foi progressivamente passando de receio a profundo incómodo.

Não posso aceitar que vivamos numa sociedade em que as nossas crianças sejam, desculpem o termo mas temos que ser capazes de chamar os “bois pelos nomes”, literalmente dopadas, só porque os adultos não encontram outra forma de as “sossegar”, tal como não podemos aceitar a ligeireza com que este tipo de fármacos são prescritos no nosso país.

Mas vamos aos números.

Em 2015, em Portugal, a crianças entre os 0 e 4 anos foram prescritas 2900 doses diárias de calmantes. Segue-se o grupo etário dos 5 aos 9 anos, com 1.261.933 doses. Já as crianças entre os 10 e os 14 anos receberam 3.873.751 doses diárias em 2015. Ao todo, é um total de 5.138.584 doses de metilfenitato, a substância ativa presente no medicamento mais comum prescrito para PHDA, a Ritalina.

Estes números, se não fossem trágicos, eram hilariantes. Mas, na realidade, devem fazer soar o alarme das consciências e da ética, quer de médicos e profissionais de saúde, quer de adultos, qualquer que seja a sua condição, pais/encarregados de educação, professores, educadores, e a sociedade em geral.

Que gerações estamos a formar?

Que sociedade é esta em que as pessoas têm que ter tempo para tudo, menos umas para as outras?

Que sociedade é esta em que os pais têm que trabalhar até cair para o lado de exaustão e, por causa disso, têm cada vez menos disponibilidade física e emocional para os filhos?

Um destes dias li o desabafo de alguém, creio que no Facebook, dizendo que tinha visto uma criança de chucha a jogar com um smartphone e que isso o tinha chocado. Como eu o percebo.

Sabemos que as crianças de hoje já nasceram na era digital e que coisas que no tempo da minha infância eram banais, hoje são excepções e não pretendo com esta reflexão apelar ao saudosismo do “antes é que era bom”.

Nada disso – os tempos modernos têm virtualidades e potencialidades que não eram sequer pensáveis nos meus tempos de infância e juventude. Quando hoje digo aos jovens com quem lido diariamente que passava noites acordada a ler e a tirar apontamentos que depois passava a limpo para estudar ou fazer os trabalhos da escola e mais tarde da faculdade; que as férias eram tempos de liberdade, convívio e aventura, ao ar livre, que praticava vários desportos federados e tinha tempo para tudo; que os meus pais me ensinaram o caminho para a escola no primeiro dia da 1ª classe e depois me fiz à vida; tudo isso é muito estranho para eles.

Percebo que hoje os tempos são outros e os perigos também, mas a verdade é que todos os estudos apontam para a relação direta entre o brincar fora de casa e o desenvolvimento saudável. 

É através do brincar que as crianças desenvolvem parte das suas aprendizagens em inúmeros domínios, como o cognitivo, físico e socio-emocional. Brincar é sinónimo de crescer, é através da brincadeira que a criança aprende a conhecer o mundo, explorando aquilo que a rodeia. Ao brincar a criança é convidada a recorrer aquilo que já adquiriu através da observação do mundo exterior, aquilo que já aprendeu, e passa a desenvolver a sua capacidade de imitação, invenção, construção, passando a expressar-se de diferentes formas e moldando o seu comportamento em função daquilo que quer transmitir.

É também através do brincar que a criança desenvolve a sua comunicação verbal e não-verbal, desenvolve afectos e adquire um vasto conjunto de competências importantes para a estruturação da sua personalidade.

Pessoalmente, adoro ver o sorriso estampado na cara de uma criança, suja até às orelhas, a rebolar-se na terra ou na relva. A felicidade é contagiosa e por mais que queiramos não conseguimos evitar um sorriso, perante tal visão.

Mais, o brincar na rua tem efeitos benéficos ao nível da produção de serotonina, responsáveis pelas emoções positivas, que por sua vez estimulam até o sistema imunitário.

Segundo os especialistas, brincar cumpre funções vitais de desenvolvimento pessoal e social e é fundamental para a saúde física, cognitiva, afectiva e relacional das crianças e deixa marcas no “ADN social” das mesmas para sempre.

Crianças que brincam são mais sociáveis e criativas; estruturalmente mais desenvolvidas em termos motores e com menos propensão para a obesidade, têm menos problemas de comportamento e são mais concentradas; estabelecem mais facilmente relações empáticas e afectivas e têm uma consciência social e ecológica mais apuradas.

Parece inegável que brincar desenvolve competências de várias ordens e previne uma série de disfunções e problemas futuros.

Nos dias de hoje é cada vez menos comum ver-se pais e filhos a brincar ao ar livre, passando as crianças a estarem mais tempo dentro de casa, recorrendo assim com maior facilidade às novas tecnologias. Apesar de existirem jogos tecnológicos interessantes e estimulantes dos quais as crianças gostam, sabe-se que muitas aprendizagens não são passíveis de ser adquiridas através dos mesmos. Para além disso, esses jogos são habitualmente mais solitários e a interacção entre a família pouco existe, ficando a comunicação cada vez mais reduzida.

Não vou falar de uma outra questão, também pertinente e que tem a ver com o facto de muito pais serem infoexcluídos e não terem competências para filtrar o acesso das crianças e jovens a conteúdos que não são, de todo, adequados à sua idade física e mental, porque essa matéria, só por si, dava “pano para mangas”.

Cada vez mais é veiculada esta necessidade de proporcionar às nossas crianças espaços de desenvolvimento saudáveis, envolvendo os adultos e as outras crianças, mas depois temos estes números alarmantes de crianças que vivem literalmente dopadas e pais literalmente esgotados.

Como compatibilizar as coisas?

Fica a reflexão e a preocupação, porque, sinceramente, acho que algo de profundamente errado se passa na nossa sociedade

* Artigo não escrito ao abrigo do acordo ortográfico.

Graça Costa
Socióloga

Graça Costa
Graça Costa
Socióloga. Colunista da Tomar TV.
http://tomartv.com

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