Opinião

Informação confidencial (Opinião)

Flávio Nunes. “Quando pedimos números a uma grande empresa, a resposta é quase sempre a mesma.”

Quando nós, jornalistas, pedimos números a uma grande empresa multinacional, a resposta é quase sempre a mesma: “não divulgamos dados para mercados específicos”. É uma história que se repete vezes sem conta e que, em plena temporada de apresentação de resultados, ganha toda uma outra relevância. Esta quinta-feira assinalou-se o Dia Europeu da Estatística. Sabe quantos passageiros transportou a Uber entre janeiro e setembro em Lisboa? Ou quantos portugueses subscreveram a Netflix desde que o serviço ficou disponível em Portugal no ano passado? Pois, nem eu. Mas gostava.

Vejamos a questão de outra forma. Sabe quantos passageiros transportou a Uber entre julho de 2014 e setembro de 2015 em todo o país? Foram “mais de um milhão”. A informação é muito vaga? Azar. Mas quer saber quantos norte-americanos subscreveram a Netflix no terceiro trimestre fiscal? Eu sei: foram cerca de 370 mil. Até sei quantos novos subscritores a empresa teve ao nível global: foram 3,6 milhões de novas adesões nesse período. Como? Porque a Netflix, como empresa cotada em Wall Street, é obrigada a revelar estes dados aos investidores.

Cá também acontece. Empresas cujas ações negoceiem em bolsa estão periodicamente obrigadas a fazer um striptease das contas à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, também conhecida por CMVM. Estamos a falar de empresas como a EDP, a NOS, a REN, os CTT, entre outras. Porquê? Porque é importante dar informação aos investidores, para que estes consigam decidir se querem comprar, vender ou manter as participações. É por isso que, muitas vezes, quando há fortes indícios de que vão existir movimentações significativas, a negociação das ações pode ser suspensa “até divulgação de informação relevante”.

Já as outras empresas, grandes ou pequenas, não têm de o fazer. Nem são obrigadas a isso, pois não têm que prestar contas a ninguém. Sejam bons ou maus, os resultados são única e exclusivamente da responsabilidade dos respetivos donos e investidores privados. Esses prestam contas a quem quiserem, como quiserem, quando quiserem. É lá com eles. Mas também há quem se aproveite disso para mostrar sempre o copo meio cheio, o lado bom, enquanto o lado mau, o lado lunar, é quase sempre ocultado. ‘O que é que interessa ao público que o nosso serviço esteja a ser o maior flop da história dos flops? Somámos dois clientes novos por dia! As vendas vão de vento em popa.’

Para os jornalistas e para o público, esta forma de ‘revelar’ informação é um problema. Porquê? Ora observe: quer saber quanto dinheiro tenho na conta bancária? Não costumo revelar essa informação, mas posso-lhe dizer que é mais do que um euro. Chega? Não? Azar outra vez. Compreende o ponto? Se eu disser que D. Afonso Henriques morreu há mais de 30 anos, não deixo de ter razão. Só que o primeiro rei de Portugal morreu em 1185. Há mais de 30 anos, sim. Há mais de 300, claro. Mas já passaram 831 anos, o que de imediato torna a minha afirmação numa meia verdade.

Podíamos continuar, claro. Mas para quê? Claro que não defendo uma completa e rigorosa divulgação de números, de estatística, para todas as pequenas e médias empresas. Isso é utópico, impossível. Mas, às vezes, bastariam uns númerozinhos para podermos matar a nossa curiosidade. Para podermos ter uma ideia da dimensão real das coisas. E para podermos juntar tudo, avaliar formular opiniões bem mais fundamentadas e, acima de tudo, tomar decisões.

Quanto às outras, as grandes empresas, aquelas que apresentam lucros com oito ou nove zeros, que compram concorrentes por mais de 60 mil milhões (60.000.000.000) ou que são avaliadas em somas tão grandes que até fazem com que um milhão de euros me pareça pouco, ai dessas sim. Dessas quero que se saiba tudo o que se conseguir. Porque são firmas com relevância, demasiadas vezes focados apenas no lucro e que tantas vezes ignoram aquele que é o seu maior valor: os clientes.

Apesar de tudo, isto não se aplica só às empresas. Explorando a ideia num plano mais local, lembro-me de várias situações em que tomarenses — jornalistas e não só — pediram informação a uma conhecida instituição pública, em que a resposta foi… o silêncio. Nem ai nem ui. Consegue descobrir qual é essa instituição? Pois, é a nossa Câmara Municipal. Aqui encontra vários exemplos.

Mas basta uma rápida pesquisa no site da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) para recordar um desses casos, muito polémico, que chegou a ser manchete de jornal. Vejamos o parecer da CADA número 14/2015, sobre uma queixa de um cidadão por “ausência de resposta” da parte da Câmara Municipal de Tomar: “Convidada pela CADA a pronunciar-se, aquela edilidade não o fez”, escreve a comissão. E conclui: “Face ao exposto, deve a entidade requerida facultar o acesso ou informar da inexistência do documento [solicitado]”, lê-se.

Tudo isto para dizer que, se a informação é publicamente relevante, se não há nada a esconder, então que não se esconda. Não, não é voyeurismo. É transparência. E é muito, muito bonito.

Flávio Nunes
Diretor-Geral da Tomar TV

Flávio Nunes
Flávio Nunes
Jornalista, diretor-geral e co-fundador da Tomar TV.
http://tomartv.com

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