Opinião

Outro conto da época, “A Crise de Natal” (Opinião)

Fernando Santos Marques. “Embora o Natal seja quando um homem quiser, no calendário ele aparece no 25 de Dezembro.”

Aproxima-se o Natal e multiplicam-se as histórias que tentam realçar o melhor que há em nós. Mesmo que o planeta pareça caminhar para o abismo e a humanidade para a autodestruição em virtude das ameaças que se multiplicam perante a nossa manifesta impotência. Desde o aquecimento global a um hipotético controlo populacional, passando pela nanotecnologia, pandemias planeadas e até ao hollywoodesco domínio mundial pela inteligência artificial e pelas máquinas. Com ou sem exterminador implacável.

Mas deixemos de lado, pelo menos por breves momentos, as teorias da conspiração. E, tal como os soldados nas trincheiras durante a primeira guerra mundial, paremos um pouco para entrar no espírito de Natal. O verdadeiro! O mesmo que fez despertar o tenebroso personagem Scrooge, e que faz com que procuremos, por estes dias, o lado mais brilhante da vida. Ou como diriam os Monty Phython, “Always Look On The Bright Side Of Life”.

Não desfazendo, deixo-vos aqui um moderno conto de Natal, que navega na internet, e se chama “A Crise de Natal” :

“ …

Estávamos a pouco mais de uma semana do Natal. Tudo corria bem até que o duende-chefe do setor de pesquisa, que terá sido o primeiro a perceber a situação, entrou de rompante no salão dos diretores da fábrica de Natal, carregando um “notebook”, e um monte de papel impresso, gritando:

– Reunião!!! Todos para a sala de reunião !!!!

Não era fora do comum aquela azáfama e confusão na fábrica do Pai Natal, ainda mais em plena reta final. Por onde se olhasse, duendes carregavam materiais, brinquedos que não passavam no teste de qualidade, cartas que chegaram atrasadas, ração extra para as renas, e outras urgências a resolver até ao grande dia.

Mas esta correria era diferente. O duende-chefe da pesquisa sentou na sala de reunião, ligou o “notebook” ao projetor e começou apresentando vários números antes mesmo dos duendes responsáveis por outras áreas da empresa chegarem. O duende do setor administrativo tentava acalmar o pesquisador:

– Espera, deixa todos chegarem!

Entretanto, entraram pela porta da sala de reuniões os chefes da contabilidade, do marketing, dos recursos humanos, da financeira, do comercial, do atendimento, da produção, … E foram colocando-se lado a lado, ao longo da mesa de reunião. Claro que a ausência do Pai Natal, o presidente em pessoa, foi sentida. Mas o pesquisador lá tratou de dizer:

– Eu também avisei o Pai Natal, mandei-lhe um e-mail, mas ele respondeu que não havia motivo para preocupações!! Mas como?!?!? Isto é terrível! É calamitoso!!! É desastroso!!! É catastrófico!!!

– Chega pá, controla-te!!!

O duende do marketing mandou um olhar severo para o desesperado empregado e pensou, “ mas afinal o que é que pode ser assim tão grave?”

– O ICPN caiu para menos de 50% …

Ainda o duende não tinha terminado a frase, já os restantes duendes entravam também em polvorosa. Afinal, o ICPN correspondia ao Índice de Crença no Pai Natal, o indicador que determina quantas pessoas no mundo ainda acreditam no bom velhinho e que está na base daquela fábrica de brinquedos continuar em funcionamento. Claro, que já houve períodos em que este indicador esteve em baixa, mas nunca esteve com menos de metade das pessoas do mundo. Agora a situação era diferente e parecia ser de facto preocupante.

O duende-chefe do departamento administrativo tentou relançar a reunião, restabelecendo a ordem:

– Mas como isso aconteceu? Como pudemos deixar isso passar?

– As crianças estão crescendo muito rápido… é a internet. – salientou o duende-chefe do atendimento. – Vocês sabiam que existem países e comunidades inteirinhas que não acreditam no poder do Pai Natal? Antigamente era bom…  até podia haver uma criança ou outra que não acreditasse, mas não era difícil conquistar a grande maioria… hoje elas entram no MSN e ficam falando disto e duvidam do que não devem!!!

– E esses pais ”workaólicos” que trabalham fora de casa quase o dia inteiro? – Interveio o responsável pelo RH – Eles trabalham desalmadamente, andam loucos para ter sucesso nas suas carreiras e esquecem do Natal… Pior, fazem os filhos esquecerem também o Natal!!!

– Eu já tinha abordado o problema o ano passado: a gente tinha que investir na imagem do Pai Natal, fazer com que o rosto dele aparecesse na imprensa, e não apenas durante a época do Natal – salientou o responsável pelo marketing.

– Como se pudéssemos investir muito mais em promoção!! – refutava o chefe do departamento financeiro – Não esqueçam que a criançada hoje em dia só quer jogos eletrónicos e gadgets,  playstations, computadores!… Vocês sabem quantos pedidos de telefones recebemos este ano?… Ora estes brinquedos são caros para produzir e não sobra verba para nada, nem mesmo para uma pequena ação de marketing!

– Controle de danos, rapazes! –  interrompeu de novo o administrativo – Afinal o que é podemos fazer para reverter tudo isto nesta última semana? Quero respostas hoje, depois do almoço.

Os duendes passaram o resto da manhã rabiscando alternativas. A queda do ICPN foi o assunto no refeitório durante o almoço. Todos estavam muito receosos, pois as perspetivas de emprego no Pólo Norte não eram boas se não trabalhassem naquela empresa. Felizmente que o Pai Natal não iria demitir ninguém. Ou será que demitiria?… Mas então, por que é que ele não apareceu na reunião, para dar satisfações e esclarecer tudo?…

Após o almoço, o diretor administrativo liderou a reunião da tarde (até se sentou na cadeira do chefe) e pediu para que os departamentos apresentassem projetos para ultrapassar o problema. O chefe do marketing começou:

– Como todos sabem, uma empresa próspera com a busca e conquista de novos mercados. Nós estamos num mercado consolidado. É verdade que servimos excelência, mas devemos expandir. Acho que está na hora de partirmos para os maus meninos.

– O quê!!! Você está louco?!?!!? É melhor parar aí!!! – as reações variavam, mas eram todas negativas.

– Senhores, os meninos maus são um grande mercado. Já se foi a época em que ser bonzinho era o objetivo dessa criançada. Hoje eles competem desde cedo, para serem adultos de sucesso num mundo ultra-competitivo. Não podemos fingir que não vemos.

Os duendes recusaram a proposta do marketing. Mais algumas ideias foram recusadas, por serem igualmente absurdas ou impossíveis. O marketing, não querendo desistir da glória de resolver o problema, chamou em videoconferência a agência de publicidade.

O executivo da agência começou:

– Vocês têm um problema de imagem. O trenó, renas, roupa vermelha larga, barba branca que nem algodão – tudo muito legal, serviu bem, mas isso ficou lá atrás, é coisa do passado. Precisamos de um novo conceito em Pai Natal. Um Pai Natal radical!!

– Radical?!! – os duendes entreolharam-se surpreendidos com a palavra.

– Sim. Têm de renovar o conceito de Pai Natal. Têm de recriar um novo Pai Natal. Com outra atitude. O trenó dele deveria ser substituído por um bólide topo de gama, de preferência um carro que vire um robô gigante, tipo transformer? Isto sim, isto é que seria ótimo. A roupa precisa também de ser alterada, talvez umas botas de salto, calças pretas de couro e jaqueta motociclista, com uns Ray-Ban da moda.

Os duendes estavam na dúvida, mas a exposição da agência era muito boa. O executivo da agência continuou, não dando tréguas:

– E ele tem que emagrecer. Essa imagem de gordinho não funciona mais, ele passa a impressão de um ser ocioso, preguiçoso, de quem não pratica exercício físico e passa a vida a comer batatas fritas e a beber Coca-Cola defronte da TV contemplando o Canal Hollywood. E como é que as crianças irão acreditar que alguém tão grande viaja pelo mundo inteiro à meia-noite? O nome também deveria mudar. Pai Natal ?! Este nome já não está “in”. Ele deveria ser chamado só de “Natal” ou melhor, “Barbinhas”.

Os duendes pareceram gostar da ideia, talvez pelo desespero de encontrar uma solução. O executivo da agência de publicidade já revelava aquele sorrisinho de vitória e ele já até começava a imaginar a sua agência a lucrar com campanhas para meninos maus no ano seguinte. Porém, e quando eles estavam prontos para aprovar a campanha, a secretária do Pai Natal entrou na sala:

– O Pai Natal ordena que todos voltem ao trabalho e não alterem a programação em vigor.

A indignação tomou a sala. Como pode o Pai Natal querer permanecer quieto? 50% de queda no ICPN!!! Estaria ele ficando senil? Será que esta inação era parte de outro plano? Será que alguma empresa multinacional já tinha comprando a fábrica do Pai Natal e depressa estariam no desemprego e a produção a caminho da China?… Será que Pai Natal estava … falido?

A semana foi passando e os duendes mais nervosos ficavam. O Pai Natal evitava abordar o assunto e não respondia a qualquer e-mail que falasse da situação. Entretanto o Natal estava cada vez mais próximo. Os duendes chegaram a programar algumas reuniões secretas para tentar alterar a situação, mas também não achavam justo fazer certas coisas pelas costas do Presidente.

Enfim, chegou o dia D: a véspera de Natal, o dia 24 de Dezembro. E aquando da reunião matinal, o duende da pesquisa entrou mais uma vez a corre na sala, acompanhado do “notebook”, dossiês com páginas e páginas, contendo gráficos coloridos e quadros cheios de números. Os duendes ficaram à espera do pior, já imaginavam que o Pai Natal nem iria precisar de sair com o trenó, já que nesta altura não sobraria ninguém no planeta Terra que acreditasse nele. A sala de reunião desta vez ficou cheia, e vários duendes ficaram do lado de fora, ouvindo e repassando o que seria discutido:

– O ICPN!!!!

– O que aconteceu? O que é que o setor de pesquisa apurou? – Perguntava o chefe do administrativo.

– Subiu!!! Está em 100%!!!!

Os duendes ficaram doidos. Pulavam de alegria pelos corredores, comemoravam, abriam com estrondo garrafas de champanhe, enchiam a cara de doces e chantilli. Os “Comos” e os “Porquês” não importavam naquele momento, tinham era de deixar tudo pronto para a grande noite. E de facto, naquele momento, nem o chefe do departamento de pesquisa saberia dizer como é que o índice tinha regressado ao máximo, aos 100%. Ele tinha saído do trabalho no dia 23 com o índice ainda baixo e voltou no dia 24 com ele no máximo. Mas como é característico de qualquer profissional de pesquisa (e este duende era bem metódico), ele não queria ficar sem uma resposta.

Assim, às 23:30, quando o Pai Natal se preparava para a grande viagem, e os duendes se reuniram em torno dele o pesquisador tomou a palavra e questionou:

– Pai Natal, como é que o senhor sabia que o índice voltaria para os 100% à última hora? E o senhor não nos deixou fazer nada para mudar a situação. Como é que o senhor podia ter tanta certeza?

– Meus amigos – disse o Pai Natal enquanto abotoava o seu casaco vermelho – deixem-me contar-vos uma coisa. Por mais difícil que seja o ano, por mais confuso que esteja o mundo, por mais que as pessoas pareçam odiar-se na rua, por mais que os pais gastem mais tempo nas respetivas carreiras profissionais do que com as respetivas famílias, durante pelo menos um dia do ano eles irão acreditar no Natal, irão acreditar em algo melhor, acreditar que tudo vai ser resolvido no ano seguinte. Um dia é pouco?… Pode até ser, mas enquanto pudermos manter as pessoas acreditando no Natal e no Pai Natal, vamos continuar a trabalhar para que um dia este sentimento bom, esta alegria de estar com as pessoas de quem se gosta, este respeito pelo próximo, dure todo o ano.

Depois deste incidente e nos anos seguintes, os duendes nunca mais fizeram reuniões de emergência, nunca mais andaram nervosos pelos corredores, nunca mais se importaram com o ICPN; só se preocuparam em fazer as pessoas felizes no dia de Natal. E isso era mais que bastante!!!

…“

Em jeito de conclusão, gostaria apenas de vos dizer que embora o Natal possa ser comemorado quando um homem quiser, a verdade é que no calendário ele aparece no 25 de Dezembro. E é para ser comemorado em colectivo. Assim, não devemos retardar o homem humanista e gentio que há em nós (não “gentio” no sentido bíblico, mas “gentio” no sentido inglês de “gentlemen”). Sendo que este mesmo humanista, que considera o homem como centro de todas as coisas, acabará por exaltar as potencialidades do homem e valorizará o ser humano como uma entidade em constante busca do melhor de si mesmo e do seu desenvolvimento, como um ser livre, autónomo e consciente. Afinal, para o humanista, o valor do homem é infindável.

Felizmente o Natal (ainda) faz vir ao de cima o melhor de todos nós.

Fernando Santos Marques
Colunista da Tomar TV

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