Opinião

Giro? É só estúpido (Opinião)

Flávio Nunes. “Não há nada na desinformação que possa ser benéfico à sociedade.”

Este é dos períodos mais fantásticos para se estar vivo. Nunca foi tão fácil comunicar, nunca foi tão fácil agir. Basta olhar para o que evoluímos na última década e meia: hoje, enviamos mensagens pelo Facebook e partilhamos fotografias no Instagram. Não há muito tempo, comunicar à distância era moroso (para não dizer caro) e quem podia tirar fotografias tinha de esperar dias ou semanas para as ver impressas no papel.

Quem quer e pode, tem voz. Quem quer e não a tem, só assim é por desconhecimento, preguiça ou inércia. Em contrapartida, só escuta quem quer. Esta democratização da sociedade civil, em que cada um fala tanto mais alto quanto o número de pessoas que querem ouvir , é talvez um dos aspetos mais positivos de toda esta evolução. Mas é também o mais perigoso.

Os nossos feeds são câmaras de eco com paredes de aço. Só lá entra aquilo em que já acreditamos — na política, no desporto, na religião. O sistema foi construído para nos dar mais daquilo que queremos. Não importa se é verdade ou ficção: haja alguém disposto a recebê-la, e a mensagem passa. Seja este meu artigo, seja uma historieta fabricada acerca de uma coisa qualquer que nem sequer existe.

Esta semana, a Tomar TV fez serviço público e desmascarou uma notícia claramente falsa que circulava nas redes sociais. Fê-lo, reconhecendo um problema que tem vindo a assolar o mundo inteiro: a propagação de informação fictícia. Houve quem nos perguntasse porque o fizémos. A esses, dou a resposta: é a nós, jornalistas e órgãos de comunicação social, que cabe o dever de, respeitando a Constituição, torcer por uma sociedade mais informada. E da mesma maneira que os tomarenses tiveram acesso a um conteúdo falso, defendemos que também devem ter o direito à desconstrução do mesmo.

Enquanto, antes, muitos tomarenses se questionavam o porquê de um El Corte Inglés pensar, sequer, em se instalar no Alto do Piolhinho, hoje já toda a gente sabe que essa informação não passou de uma brincadeira de mau gosto, posta a circular com interesses muito próprios: gerar tráfego e receitas a partir da ingenuidade de outros. Hoje, os tomarenses sabem-no porque a equipa da Tomar TV a desconstruiu. Sabem-no, porque colocámos os nossos meios ao serviço de um público mais informado e mais consciente.

Por muito que toda esta paródia possa parecer inofensiva, não o é. Não há nada na desinformação que possa ser benéfico à sociedade. Pôr a circular uma notícia falsa é corromper algo tão útil e fascinante como o podermos partilhar uma ideia, um pensamento, de forma livre, sem custo, sem perguntas, sem censura. Fazê-lo é atentar contra a Constituição, contra a liberdade de informação, contra os fundamentos do Estado de Direito e, em última instância, contra a liberdade de expressão.

Sim, a liberdade de expressão. E sabem porquê? Porque quanto mais informados nos exprimirmos, melhor para todos, melhor para a comunidade. É na desinformação e no enviesamento das opiniões com base em dados irreais que nasce o populismo e muito do ódio e da discórdia. Gente que cria notícias falsas e acha giro… Giro?! Não é nada giro. É só estúpido.

Flávio Nunes
Diretor-geral da Tomar TV

Flávio Nunes
Flávio Nunes
Jornalista, diretor-geral e co-fundador da Tomar TV.
http://tomartv.com

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