Opinião

Um choque de realidade: habemos Donald Trump na Casa Branca (Opinião)

Flávio Nunes. “O sistema elegeu Trump. Ainda não percebi quem votou Trump.”

Donald Trump deixou de ser só o eleito presidente para a ser também o presidente eleito. Aquele que nunca imaginámos ver na Casa Branca é, desde esta sexta-feira, o timoneiro de um gigantesco navio, de uma enorme embarcação a que chamamos Estados Unidos da América. Pôr Trump ao leme de um barco desta envergadura é como deixar uma criança conduzir um camião: não é recomendável, não é boa ideia e muito provavelmente vai fazer estragos e prejuízo para toda a gente.

Hillary Clinton também não é flor que se cheire. A candidata democrata e única alternativa viável no boletim de voto foi sendo queimada em lume brando ao longo de toda a campanha. O escândalo dos e-mails e o arrastar de um passado do qual poucos se orgulham acabou por trair tudo e todos. Não só porque muitos (incluindo jornais e sondagens) davam como praticamente certa uma vitória azul nas presidenciais, como nem a própria alguma vez terá pensado vir a ser derrotada por um candidato independente e totalmente fraturante como o é Trump.

Já não há volta a dar. O republicano propõe-se a instaurar no país as ideias que foi disparando durante a corrida, como o reverter de muitas das políticas que foram bandeira da anterior Administração Obama — de repente tive um déjà vu e pareceu-me já ter ouvido isto em algum lado. Destas, o plano de saúde Obamacare é só o exemplo mais flagrante e, por sinal, imediato.

Não é razão para desanimar. Muitas são as vozes que se têm insurgido contra a emergência do populismo que, acredito, também já chegou a Portugal (isso fica para outro artigo). No jornal de economia ECO, Shannon Graybill, natural do Texas mas a viver em Lisboa, lançava um apelo (desafio?) a todos os ocidentais: “Não vejam os Estados Unidos como a vossa bola de cristal. Não deixem que o medo e a exclusão ditem o que têm à vossa frente.”

Mas o sistema elegeu Trump. Por esta altura, ainda não percebi quem votou Trump. E desconheço o perfil dos eleitores Trump. Por cá, na Europa, o referendo britânico arrancou o Reino Unido da União Europeia e as eleições na Alemanha, na Itália e na Holanda ameaçam espalhar a desunião. Mas, no fundo, o poder está em todos os eleitores, europeus e não europeus, que têm na ponta da caneta ou na ponta do dedo o direito ao voto secreto, democrático. Escolhas certas põem o mundo a rumar no trilho certo. Escolhas erradas, ideológicas, lançam-nos a todos no abismo.

Apesar de tudo, ainda tenho esperança (pouca) de que Donald Trump, à frente do grande barco que são os Estados Unidos, consiga levar o país a um porto seguro. Mas pode não acontecer. E, então, a super-potência do outro lado do Atlântico não será mais do que um Titanic prestes a colidir com a dura realidade.

Flávio Nunes
Diretor-geral da Tomar TV

Flávio Nunes
Flávio Nunes
Jornalista, diretor-geral e co-fundador da Tomar TV.
http://tomartv.com

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