Opinião

Opinião: Um gesto, um traço e um eterno obrigado

Sérgio Aleluia. “O desaparecimento da professora Laura não me poderia passar ao lado. Perdi uma amiga, uma confidente.”

2017 não tem sido um ano fácil. A efemeridade da vida daqueles que nos rodeiam leva-nos, por vezes, a pensar um pouco sobre o que andamos a fazer neste mundo. Ontem, hoje e amanhã são palavras com muito significado.

O que me leva a escrever, em jeito de desabafo e agradecimento, prende-se com uma grande senhora a quem estarei eternamente agradecido por ter sido a verdadeira alavanca na minha forma de olhar para o mundo. Ontem, uma professora. Hoje, uma amiga. E, amanhã, uma memória.

De 2007 a 2010 tive o privilégio de ver a professora Laura Cardoso Lopes a passar na minha vida. De giz na mão — ao qual era alérgica — com um sorriso especial e com um sentido de humor fora do comum, a ensinar-me o que, em tempos, alguém lhe havia ensinado: a arte de ver a beleza no mais comum dos objetos e, mais importante, de os desenhar com alma.

Com ela aprendi a desenhar fruta, a ver beleza na normalidade, a expandir horizontes visuais e a transformar um pouco de carvão naquilo que cada um de nós alunos achava ser a sua obra de arte. A “minha arte” perpetuou-se nesta moldura que tenho exposta no quarto há nove anos. Lembro-me como se fosse ontem que, a especial pedido, pediu-me que emoldurasse este trabalho, feito em 2008 e que já tinha estado anteriormente exposto na escola Santa Iria. Esta será a única memória física que terei dela e guarda-la-ei para sempre, com o mesmo carinho e o mesmo brilho nos olhos que ela tinha todos os dias.

A propósito desta moldura, encontrei hoje os lápis da Caran d’Ache que utilizava nas suas aulas. Havia um, de tom verde claro azulado, que chamávamos de “janota” por não se saber como denominar aquela cor. Era um lápis especial e que circulava por todas as mãos, pois dava sempre um toque especial a cada trabalho.

Recordar aquelas aulas é recordar as histórias que nos contava. É lembrar quando se sentava nos bancos do exterior da escola a fumar um cigarro e a fotografia que um dia nos mostrou quando era mais nova e ainda vivia em Moçambique. “A professora era uma brasa!”, dizíamos. “Oh meninos, ainda sou!”, retornava ela, com aquele olhar malandro.

Mas o tempo passou. Ontem, em 2010, foi o ano de despedida da escola Santa Iria. Aposentou-se e, certo dia, confessou-me que estava feliz por isso, porque já estava farta das burocracias do ministério, alegando que ser professor já não era a mesma coisa.

Hoje, o desaparecimento físico da professora Laura não me poderia passar ao lado. Perdi uma amiga, uma confidente e aquela mulher que não sabia o meu nome mas que sabia que era o rapaz do desenho do sofá vermelho. Lembro-me perfeitamente da última vez que falei com ela, quando a encontrei numa caixa de supermercado. Ela apareceu, disse-lhe que estava ótima e, em tom de brincadeira, que estava “giraça”, como sempre foi. O que falámos permanecerá sempre entre nós e continuarei a lutar para cumprir aquilo que me disse nessa última conversa.

Hoje o céu ganha uma estrela muito especial. Vou ter muitas saudades do seu sorriso.

Professora Laura, obrigado e até sempre!

Sérgio Aleluia
Diretor de Informação da Tomar TV

Sérgio Aleluia
Sérgio Aleluia
Jornalista e 'News Anchor'
http://www.tomartv.com

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