Opinião

Uma história alternativa — ou Tomar no Pós-Verdade (Opinião)

Fernando Santos Marques. “Pessoalmente, julgo que Tomar não vive dias felizes. Embora aspire ao Paraíso. Repetidamente.”

O que vale a mentira na política?

– Pelos vistos, nada! E, pelos vistos, tudo. Eu passo a explicar.

1. Alguns fazedores de opinião dizem que nos dias que correm já não adianta “falar verdade” porque a imprensa mais mercenária — que, em abono da verdade, sempre existiu na História da Humanidade — depressa reescreverá a realidade segundo a lógica dos vencedores. Mesmo que os ganhadores sejam efémeros e, consequentemente, a verdade tenha tendência a vir à tona; mais tarde ou mais cedo. No entanto, e à falta de outra, será esta a verdade que mais rapidamente se fabrica e se divulga. E também a que mais facilmente se apreende. Quiçá se cimentada pela tradição de “não haver amor como o primeiro”…

2. Vem isto a propósito da moda do “pós-verdade”. Adjetivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” e que foi considerada a palavra do ano 2016 para a Universidade de Oxford (post-truth). A palavra ganhou a outras bem mais agradáveis, como por exemplo “Hygge” — “uma qualidade ligada a uma atmosfera aconchegante e um convívio agradável associado a uma sensação de bem-estar, muito típica na cultura dinamarquesa” e que muitos defendem ser o segredo desse país escandinavo para a felicidade. E eles sabem do que falam, pois são considerados como “o povo mais feliz do planeta”!

Ora segundo a Oxford Dictionaries, o termo “pós-verdade”, com a definição atualmente aceite, terá sido utilizada pela primeira vez em 1992, pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich. Acresce ainda que o termo tem sido empregue com alguma regularidade na última década, verificando-se no entanto um acréscimo significativo do seu uso o ano passado. Refletindo o facto de “pós-verdade” deixar de ser um termo marginal para passar a ser uma referência central no comentário jornalístico e político. De referir que segundo a Oxford Dictionairies, a palavra vem sendo repetidamente utilizada em artigos e análises sobre dois recentes acontecimentos políticos:

E a singular semelhança destes acontecimentos passa pelo facto de ambas as campanhas terem feito uso indiscriminado de mentiras, ou melhor, de falsas notícias. No caso do Brexit, por exemplo, foi divulgado que a permanência na União Europeia custaria à Grã-Bretanha 470 milhões de dólares norte-americanos por semana, e no caso da eleição de Trump, que Barack Obama seria o fundador do Estado Islâmico.

Versões irreais que confundiram eleitorados e estarão na base dos resultados inesperados.

3. E retomamos a história da verdade na mentira.

Verdade? Mentira? Não. Nada disso. Como afirmou Kellyanne Conway (a já célebre conselheira de Donald Trump), em defesa do seu chefe, apenas estamos com interpretações diferenciadas da verdade. Ou melhor, com “factos alternativos”! “Factos” divulgados através das redes sociais, sem “manipulação” de nenhum jornalista. É fácil. É barato e, pelos vistos, dá muitos votos.

E devemos esclarecer que por manipulação estaríamos perante a confirmação da informação a veicular.

Mas estes “factos alternativos” acabam por colocar o dedo na ferida, revelando também a crise da democracia representativa. O triunfo do burburinho sobre a honestidade. Para quê perder tempo a investigar a notícia quando ela parece tão credível…

Com o fim dos “ditos” intermediários no mercado noticioso e na divulgação da informação, assistimos à subversão das regras. A deontologia ficou moribunda. E os leitores ávidos de informação trocam facilmente a credibilidade pela rapidez no acesso a novos “factos”.

E nesta linha de raciocínio o Twitter parece vencer a toda a linha os jornais de referência Um comentário precipitado entre duas garfadas de ovos mexidos ao pequeno-almoço passou a ser o destaque do dia. Uma exclamação de uma personalidade com insónias uma nota de imprensa tomada como oficial.

Em suma, onde é que está a verdade. Em todo o lado e em nenhum.

4. Neste ponto do texto poderíamos falar da retórica da verdade e da sua omissão na perspetiva de Nietzsche. Ou então da subjetividade dos factos – ou melhor, dos conceitos – na perspetiva de Karl Marx. Mas não queremos maçar mais os eleitores.

De salientar apenas que Daniel Oliveira tem falado da “ditadura do burburinho”, que se alimenta do ressentimento. Enquanto que o Presidente da Apple, Tim Cook, numa entrevista recente ao The Daily Telegraph, vai mesmo mais longe e refere que “as notícias falsas estão a matar as mentes das pessoas”, salientando que “é preciso diminuir o volume de notícias falsas nas redes sociais”.

De forma insuspeita, Pedro Norton na revista Visão resumia que “a Pós Verdade sempre existiu e sempre teve um nome mais prosaico, a Mentira”.  Então porque é cada vez mais difícil chamar os bois pelos nomes e intitular de mentiroso quem falta à verdade?

Na base temos um novo fenómeno social. Algumas pessoas o que mais ambicionam é obter cliques nas suas páginas. Sempre mais cliques. E não se preocupam em não divulgar informações verdadeiras.

E sejamos francos. Neste momento, o perigo vem sobretudo dos posts de amigos que veiculam informação não confirmada. É que a pressa de divulgar informação leva os mais ativos a replicar desinformação com notícias que jamais passariam o crivo de qualidade que gostaríamos de manter. No fundo é como se andássemos a lançar lixo uns aos outros, sem nos preocuparmos com a sua veracidade e/ou proveniência, mas sem querermos ir sujos para casa.

Mesmo quando se falar de economia, e de mercados financeiros, a verdade da mentira é usual. Tal como os bluffs… Talvez por isso, o Parlamento aprovou recentemente a criminalização de informações falsas, numa tentativa de reforçar a regulação dos mercados. Vamos a ver se resulta…

5. Talvez por isso, tanto se passou a discutir a verdade como questão de poder. Mais uma vez a política e a filosofia tendem a misturar-se. Mesmos que alguns, digam que a Ética Política passou de moda.

A liberdade de expressão é uma conquista muito importante para ser contestada. Sobretudo quando a mesma esteve na base do sucesso eleitoral dos que agora a parecem temer. Afinal e como salientei no início do texto, a verdade ameaça vir sempre à tona!

Por isso sejamos honestos. O que chamamos hoje de “Pós-verdade” não é um problema novo. Ele sempre existiu, com maior ou menor grau. Com maior ou menor eficácia. E essa será tanto maior, quanto menos mecanismos de autocontrolo tivermos a funcionar. E não lhe chamem censura…

6. Vem isto a propósito de alguns pretenderem reescrever a história recente do concelho de Tomar com base em meia dúzia de falácias, como se este fosse um pequeno oásis no norte do Ribatejo. Acrescentaria mesmo, um paraíso em pleno Universo, imune a qualquer dos problemas terrestres: crises económicas e financeiras; aumento do desemprego; pressões migratórias, alterações climáticas, etc.

Ora também aqui estamos perante um fenómeno social e político que se chamava tradicionalmente rumor. Ou boato. Uma mentira que se amplia mesmo antes de sermos dominados pela força na atual sociedade em rede. Ou seja, estamos também aqui perante informações que circulam na esfera pública com aparência de verdade. E se anteriormente se privilegiava a transmissão oral, hoje, utilizam-se outras ferramentas. Mas a finalidade é sempre a mesma. Desviar atenções. Torcer a verdade. Alterar a perceção da realidade. Manipular eleitores.

Pessoalmente, julgo que Tomar não vive dias felizes. Embora aspire ao Paraíso. Repetidamente.

Tão pouco os tomarenses com que me cruzo – os poucos que ainda fazem desta a sua terra – vivem contentes com o que o presente lhes oferece e o futuro lhes reserva.

No entanto a classe que tem governado o concelho continua a promover o sucesso. Como se este fosse real. E pretende manter um status quo que tende a prolongar a longa agonia destes anos de podridão.

Devíamos falar verdade de uma vez por todas. Mas para muitos ainda não será desta. E assim, Tomar parece caminhar alegremente para o abismo. E caso não sejamos parte interessada na mudança, a ruína socioeconómica da cidade e do concelho de Tomar será inevitável.

Em ano de eleições autárquicas, é urgente acreditar novamente em Tomar, privilegiando candidatos de mudança ao invés de figuras de continuidade. E urge também acreditar nos tomarenses, pois são eles o futuro deste concelho.

E na campanha eleitoral que se avizinha, Tomar precisa de menor burburinho, menos espuma e mais rigor. Precisa que os políticos apresentem projetos coerentes e sustentáveis e não mais do mesmo. Afinal, não gostaríamos de ser, mais uma vez, massacrados com jogos de guerrilha político-partidária quase sempre sem conteúdo.  

Ora acreditemos numa elevação maior do debate político. A bem dos tomarenses. A bem de Tomar.

Fernando Santos Marques
Colunista da Tomar TV

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