Opinião

Opinião: Os jornalistas de Tomar põem-se a jeito

Flávio Nunes. “O jornalista deve sentir medo de andar na rua, porque é assim que tem de ser. Põe-se a jeito.”

Em Tomar, quando a comunicação social publica uma notícia, acontecem sempre várias coisas. Se o assunto não for relevante, bate-se no jornalista por não estar a fazer jornalismo. Se for uma notícia que apela ao clique, bate-se no jornalista por não ter qualidade. Se for um tema realmente importante para a sociedade, bate-se no jornalista também, porque toda a gente sabe que é tudo gente sem credibilidade, qual ralé cheia de interesses aqui e ali. 

Se a notícia for que um artista de murais, apoiado pelo poder local, agrediu um jornalista na esplanada de um café, então, bate-se em quem escreveu o artigo. Toda a gente sabe que o jornalista não tinha nada que andar a meter-se na vida dos outros e que as coisas são sempre melhores quando não se fala nelas. Quando não se criticam. A vida até corre melhor e os pássaros cantam mais alto. Arte é arte: admira-se e não se discute. Ponto final.

Mas há outras situações em que o jornalista mostra números e levanta questões. Como aquela tentativa de perceber como é que a Câmara garante que não investe em publicidade nas redes sociais quando os anúncios estavam à vista de todos. E a tentativa seguinte de esclarecer uma série de dúvidas que, como noutras, nunca chegou a ter resposta. Nesse caso, pergunta-se que mal tem. Qual é o problema de se investir no Facebook? Jornalista mesquinho. Deviam de lhe atirar um café para cima.

De facto, quando a comunicação social tomarense publica uma notícia, vêm sempre os do costume para descredibilizar. É quase obrigatório. Perguntam qual é o interesse. Perguntam que mal tem. Mesmo que o texto seja claro, objetivo, sem enviesamentos nem juízos de valor. O jornalista é preso por ter cão, é preso por ter gato. O jornalista deve sentir medo de andar na rua, porque é assim que tem de ser. Porque meteu-se onde não se devia meter. Porque pôs-se a jeito. E toda a gente sabe como anda o jornalismo.

Toda a gente sabe que, em Tomar, nada é notícia. É só tinta no papel para agradar a uns poucos. É só blá blá blá para alimentar o jogo político. É só velhos do restelo. Os jovens só querem beber, fumar e sair à noite. Não querem fazer nada, nem por eles, nem pela sociedade, mesmo com os enormes esforços de quem governa a autarquia para apoiar a juventude e o empreendedorismo. Esperava-se que daquela corrida da tinta fossem sair grandes ideias. Mas essa juventude não está nem para aí virada. Para o ano há mais e voltamos todos a torcer para que, dessa enorme festa, surja um grupo de jovens com vontade de marcar a diferença.

Isso, ou então está tudo ao contrário, de pernas para o ar. Talvez ainda haja jornalismo sério. Talvez ainda existam jornalistas sem medo. Talvez ainda haja quem ouse questionar o sistema. Talvez andem por aí pessoas de bem. Acima de tudo, talvez ainda se encontrem jovens de Tomar que realmente queiram marcar essa diferença. Ou, talvez, já pouco reste a fazer.

Há quem só queira notícias que não façam comichão. Não por mim. Publico este artigo bem recheado de ironia, consciente das ameaças que vão surgir e dos ataques que vão aparecer. Ainda bem que esta terça-feira é 25 de abril.

Flávio Nunes
Diretor-geral da Tomar TV

Flávio Nunes
Flávio Nunes
Jornalista, diretor-geral da Tomar TV. Editor e colunista.
http://tomartv.com

2 thoughts on “Opinião: Os jornalistas de Tomar põem-se a jeito

  1. “Talvez ainda haja jornalismo sério. ” Há ainda jornalismo sério. Só é pena não o encontrarmos na TomarTV. Os jovens que a constituem parecem trabalhadores, dinâmicos, exemplares, mas precisam levar a cabo o seu 25 de Abril. O jornalismo quer-se independente, incómodo mas acima de tudo imparcial. Qualidades que não transparecerão na TomarTv, enquanto quem orienta estes jovens insistir em forçar a sua agenda. Emancipem-se.

  2. Olha Flávio, faz assim: Quando quiseres publicar alguma coisa muito escabrosa, põe o meu nome como autor da notícia. É que eu já tenho uma certa idade e já conheço os tomarenses à muitos anos. Sei como lidar com isso. Um abraço. Maurício Marques

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *