Opinião

Incêndios: É fogo atrás de fogo e zero de explicações

Flávio Nunes. “Se as autoridades nada explicarem, se os autarcas nada exigirem e se tudo se mantiver como sempre, voltaremos a ter graves fogos ano após ano.”

Este verão, a região do Médio Tejo volta a enfrentar um grave problema de incêndios. Ano após ano, os fogos repetem-se, em zonas relativamente próximas umas das outras. Só esta segunda-feira foram às centenas os bombeiros e populares que ajudaram a combater as chamas em Tomar, Abrantes e Constância, já para não falar dos fogos que têm fustigado o concelho de Ferreira do Zêzere nas últimas semanas. Podemos ir mais longe, juntando ao pacote fogos bem complicados na região de Mação e, claro, o trágico incêndio de Pedrógão Grande, que nunca mais iremos esquecer.

Mas estes últimos dias são, de facto, muito peculiares. Olhando em particular para a freguesia de Asseiceira, e com base na informação que é pública, é possível perceber que houve registo de um incêndio perto das nove da manhã de segunda-feira, seguindo-se depois um incêndio maior na freguesia vizinha de São Pedro e que rapidamente se alastrou até lá, queimando uma zona bastante significativa de floresta. Não esquecer que, há mais de uma semana, a Tomar TV noticiou, com base em informações cedidas pelos bombeiros de Tomar, “quatro ocorrências” de fogo em menos de duas horas.

Esta segunda-feira, por volta das 11h da manhã, eu próprio chamei os bombeiros ao avistar uma coluna de fumo bastante ativa na floresta junto à estrada da Atalaia. Felizmente, a rápida atuação dos bombeiros impediu um problema de maiores dimensões, o que é de louvar e agradecer. Terá sido tão rápido que nem há registo dessa ocorrência no site da Proteção Civil — o que explicará o facto de as “quatro ocorrências” que a Tomar TV noticiou terem surgido nesse mesmo portal como uma só, como se questionaram alguns leitores.

Insisto nesse caso, o dos quatro fogos em menos de duas horas, por uma razão muito simples: porque tudo isto poderia ser explicado facilmente como tratando-se de reacendimentos. Mas não. Quando contactei os bombeiros, coloquei a questão de forma muito pragmática: podem ser focos de incêndio provocados por um fogo original? A resposta foi clara e negativa. Porque “não havia lá fogo nenhum”, começou de noite, em zonas diferentes e separados por largos minutos, mesmo depois de já terem sido extintos.

A sabedoria popular leva quase sempre a crer que se trata de “fogo posto”. Não creio que todos o sejam, nem poderia indicar tal coisa sem provas muito concretas. No entanto, que os incêndios se repitam constantemente, ano após ano, semana após semana, em sítios muito próximos, numa mesma região, separados por minutos, é realmente muito estranho. Nota mesmo para o facto de os incêndios em Tomar e em Abrantes se terem iniciado exatamente no mesmo instante — os registos têm apenas um minuto de diferença.

De nada me vale levantar suspeitas. Nem é com esse propósito que escrevo. Mas há aqui algo que me parece evidente: exigem-se explicações. A gravidade e o sobressalto que estes casos provocam nas populações, onde me incluo, torna urgente que as autoridades nos expliquem o que se está realmente a passar. Não é possível termos uma região que todos os anos é ferida pelo fogo sem que o Estado apresente uma origem, uma justificação. Não é preciso fazer um esforço muito grande para recordar outros casos, em anos anteriores, dos quais ainda hoje se desconhecem os contornos. Ou as autoridades não sabem, ou sabem mas não querem dizer. E ambas as explicações me parecem de grande gravidade.

Há ainda outro problema que creio ser relevante. A cobertura do incêndio em Pedrógão Grande levou-me a contactar com vários especialistas em gestão de fogos florestais. Um deles foi Henrique Pereira dos Santos, que é escritor, arquiteto paisagista e colunista do jornal Público. Tivemos uma longa conversa por telefone e dela nasceu este artigo no jornal ECO. Entre as coisas que Pereira dos Santos nos explicou está o facto de ser necessário pensar numa estratégia de prevenção de incêndios florestais, um trabalho que se faz no inverno e não no verão, porque incêndios vão haver sempre pois o fogo é um elemento natural. Nessa entrevista, disse uma frase completamente reveladora: “A opção não é a de ter fogos ou não ter fogos. A opção é entre ter fogos como queremos ou como não queremos.”

Outra grande ideia deixada por Pereira dos Santos nessa entrevista resume o que se passa atualmente em Portugal, em que o concelho de Tomar e o concelho vizinho de Vila Nova da Barquinha são exemplos flagrantes: “É como se nós tivéssemos em casa a ideia de deixar os bicos do gás acesos e dizer ‘meninos, agora ninguém risca um fósforo ou ninguém faz uma faísca’. Toda a gente sabe que, de uma maneira ou de outra, há de haver uma faísca. O que nós temos no nosso território são as torneiras do gás acesas.”

Tomar tem as torneiras do gás acesas. E basta haver alguém muito mau e com muito tempo livre para pôr em risco muitas vidas. A “estrada da morte” de Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, onde morreram largas dezenas de pessoas no mês passado, pode vir a ser qualquer outra estrada deste nosso Portugal. Como a nacional 110, em tantas zonas ladeada por mato, eucalipto e pinheiro numa densa e descuidada vegetação que até recai sobre as vias.

Ora, se os nossos autarcas nada exigirem, se as nossas autoridades nada explicarem e se tudo se mantiver como sempre, voltaremos a ter grandes fogos todos os anos, a lamentar vítimas e, no pior cenário, a chorar mortes. É a lei da natureza. Este verão ainda agora começou e vai certamente correr muita água por debaixo da ponte até setembro. Espero é que reflitamos todos no que andamos aqui a fazer — ou a não fazer. E que os nossos autarcas e presidentes de junta se lembrem mais vezes de que é preciso gerir a floresta durante todo o ano, ao invés de apenas encomendarem cimento e alcatrão… e só em ano de eleições.

Flávio Nunes
Diretor-geral da Tomar TV


Este é um artigo de opinião. As opiniões publicadas na Tomar TV são da responsabilidade do autor que as subscreve.

Flávio Nunes
Flávio Nunes
Jornalista, diretor-geral e co-fundador da Tomar TV.
http://tomartv.com

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