Opinião

O problema da lista dos mortos de Pedrógão Grande

Flávio Nunes: “Pode ter morrido mais gente do que o anunciado em Pedrógão Grande. Serão realmente muitos mais?

Oficializaram-se as suspeitas de que qualquer coisa não bate certo. A confirmação de mais uma morte no incêndio de Pedrógão Grande, para além das 64 avançadas pelo Governo, abriu a porta para uma nova realidade que todos tememos ver um dia destes nas capas dos jornais. A Tomar TV está a investigar mais dois falecimentos, ainda não confirmados, que poderão elevar o número. E o jornal Sol noticiou a lista de uma empresária, Isabel Monteiro, que tem já 80 nomes.

Vale a pena falar sobre essa lista. Conheço-a e conheço (não pessoalmente) quem a está a elaborar: Isabel Monteiro, com quem tenho mantido contacto ao longo das últimas semanas, a qual cedeu à Tomar TV para nos ajudar a elaborar a nossa lista, aquela que noticiámos no último sábado e que nos levou a chegar aos 64 nomes em segredo de Justiça. Não a noticiámos logo por ter duas entradas não confirmadas. Aliás, encontrámos repetições nessa lista de mais de 80 nomes de que falam agora os jornais. E a versão publicada pelo Sol é, no fundo, a lista elaborada pela equipa da Tomar TV, com a ajuda da Isabel e com algumas entradas e alterações feitas pela própria.

Isabel Monteiro tem algum mérito. Apercebeu-se de que algo não estava bem e, apesar de não ser de Pedrógão Grande, terá estado no terreno a ajudar quem mais precisava, levando apoio a gente que pouco ou nada recebeu.

Contudo, o facto de vários jornais noticiarem listas elaboradas por populares mostra que alguma coisa não bate certo também no que toca à comunicação social. Essas listas são importantes, sim, mas deveriam servir de base ao trabalho que cabe apenas aos jornalistas. Uma notícia sobre uma lista não verificada é um tiro ao lado do porta-aviões. Como foi a notícia do Sol e como foi o título do jornal Expresso (“Lista dos 64 mortos exclui vítimas de Pedrógão”) que, das duas, uma: ou era escrito no singular — vítima em vez de “vítimas” — ou não era escrito assim de todo.

Desde junho que oiço rumores de que seriam mais de uma centena de mortos no fogo de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pera. Nunca me pronunciei publicamente acerca deles. Fi-lo somente com colegas e amigos, em ambiente informal, ao mesmo tempo que tentava chegar à lista que este fim de semana a redação da Tomar TV decidiu publicar. Qualquer notícia não verificada de uma lista de mais de 80 mortos só iria validar junto da opinião pública um rumor que poderá não passar disso mesmo.

Chegados aqui, importa também apontar que a notícia do Expresso, que prova que houve um óbito excluído da contagem por ter sido uma morte indireta, abre um enorme precedente. Quantos mais foram excluídos da contagem oficial por não terem morrido devido a queimaduras ou inalação de fumo? Até agora, da pesquisa que temos feito, a Tomar TV não tem razões factuais para acreditar tratarem-se de muitas mais mortes do que as confirmadas até ao momento, mas…

Esta é uma pergunta muito importante que ainda está por responder. É grave quando não há uma entidade que ponha um ponto final nas dúvidas (o que deveria ter sido feito em junho e não mais de um mês depois). É muito grave quando um primeiro-ministro, face a estas notícias, diz apenas que está tudo esclarecido, são 64, vira costas aos jornalistas e vai embora. E é gravíssimo quando, mais uma vez, o Governo se volta para a gestão de crise, para a política de comunicação, e não presta mais esclarecimentos. Ou quando nenhuma instituição oficial responde às perguntas concretas dos jornalistas: o ministério da Administração Interna não respondeu às minhas e o Público noticia esta segunda-feira que também tem dezenas de questões que ficaram sem resposta.

Posto isto, é urgente que as entidades públicas e o Governo dêem uma resposta clara e inequívoca a todas estas questões, cessando de uma vez com a atitude fugidia que não beneficia nada nem ninguém (beneficia-os a eles, na verdade). E que todos nós, jornalistas, consigamos tratar o tema com o máximo rigor e sem ligeireza, explicando claramente o que é verdade e o que não passa de suspeita, pressionando as entidades a darem explicações. O nosso trabalho é informar, tanto nos órgãos de comunicação para os quais trabalhamos, tanto nas redes sociais onde frequentemente escrevemos.

Flávio Nunes
Diretor-geral da Tomar TV


Este é um artigo de opinião. As opiniões publicadas na Tomar TV são da responsabilidade do autor que as subscreve.

Flávio Nunes
Flávio Nunes
Jornalista, diretor-geral e co-fundador da Tomar TV.
http://tomartv.com

2 thoughts on “O problema da lista dos mortos de Pedrógão Grande

  1. Parabéns Flávio Nunes,
    é tão importante que há a vossa geração jovem no jornalismo aqui em Portugal,
    parece que a “população tem atitude de ovelha”,
    tantas “mentiras oficiais” que ouvimos na TV National Portuguesa a cerca do Insêndio Pegrogão Grande,
    muito importante que vocés continuem – e insistem a informar a verdade, vocés estão no local,
    melhor não esperar pelo “governo” – melhor vocés fizeram o que possam.
    Eu vou estar alerta e tento divulgar tudo a cerca do assunto, que vocés investigam.
    Qualquer coisa que eu posso fazer, estou disponível.
    Agora já, grâcas ao vosso Video sob Coelheira amanha vou lá levar material p cozinha 2nda mão.
    Abraços sinceros, Conny Kadia
    Artista/Freelancer/ Activista no Grupo Rastos Químicos – Portugal

  2. 64, 65, 70, ou 80, qual a diferença? são pessoas e as pessoas não devem ser tratadas como números. É sempre grave e lamentável. Fazer politica com mortes não é ético, não é moral e não pode ser aceite. Não vale tudo. Descansem em paz. Deixem-nos descansar e respeitem a sua memória e o sofrimento dos que ficaram. “Vão” aos votos para outro lado.
    José Manuel

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