Opinião

Lágrimas não apagam incêndios

Fernando Santos Marques: “Portugal continua a parecer um barril de pólvora. Pelo que não sei se desta vez tivemos azar ou se temos tido sorte.”

Escrevo na noite de segunda-feira, 16 de Outubro, quando ainda arde parte do meu país do pinhal. Quando as contas ainda não estão fechadas e falta o balanço da tragédia do segundo fim-de-semana de Outubro. A mais recente e última tragédia,… mas apenas até à próxima. O número de mortos já vai em 36 e a área ardida, segundo o Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais, soma mais de 630 quilómetros quadrados, qualquer coisa como 6 cidades de Lisboa (ultrapassando 350 mil hectares ao longo de 2017). E onde contabilizamos a destruição de 80% do Pinhal do Rei, ou Pinhal de Leiria. Esse mesmo. O Pinhal que para nós era património nacional intocável. Era História viva com mais de 750 anos!

1. Todos os anos por alturas do Verão, a floresta portuguesa é notícia pelas piores razões. Este ano não foi excepção. Mesmo depois da estação ter passado. Estamos no Outono e continuamos com um tempo anormal. Quente. Seco. Ao idêntico dos últimos anos. Onde os fenómenos extremos são cada vez mais regulares. Falam em alterações climáticas. Outros em aquecimento global. Todos comentamos as mudanças. Reconhecemos os seus sinais. Pelo que deveríamos estar mais conscientes da sua força destruidora. Mas parece que não. Continuamos fiados na “divina providência”… ou sorte. Num autêntico jogo de roleta russa.  

Portugal continua a parecer um barril de pólvora. Pelo que não sei se desta vez tivemos azar ou se temos tido sorte.

Mas entre sorte e azar, 2017 será um ano de má memória! Das 200 pessoas que morreram desde o ano 2000 em incêndios florestais em Portugal, mais de metade foram vitimadas este ano. O país encheu-se de chamas. E o vermelho dos fogos deu lugar ao preto do luto que todos toca. Mas sentido com maior profundidade por quem labuta arduamente toda uma vida e repentinamente se vê só e impotente numa batalha desigual.

2. Neste jogo de encontrar culpados pelo estado a que isto chegou, somos tão criativos e engenhosos quanto a desresponsabilizar-mo-nos das nossas acções. E no desfilar de justificações quando em período de luto, ficamos a saber que a culpa é afinal de todos e de ninguém.

A culpa é dos sucessivos governos que têm cortado apoios à Proteção Civil. É do SIRESP que não funciona. É dos bombeiros que não chegam para todos. É dos aviões que não voam à noite. É dos agentes públicos que têm contribuído para um território desordenado. É dos técnicos da Proteção Civil que não sabem analisar a susceptibilidade de incêndio florestal. É das chefias incompetentes da Proteção Civil com cursos obtidos na farinha Amparo É da falta de gestão de combustíveis na floresta. É das autoridades policiais que não têm planos e sistemas de gestão de catástrofes. É das pessoas que entram em pânico e não cumprem as indicações das autoridades. É a ausência de autoridade. É dos Autarcas que fecham os olhos às pequenas prevaricações. É dos deputados da Assembleia da República que fecham os olhos às maiores. É dos políticos que colocam os interesses de curto prazo à frente dos estratégicos. É dos incendiários. E dos negligentes que fazem queimadas antes do tempo. Dos fumadores que continuam a lançar beatas das viaturas. Dos caçadores que disparam balas para o pinhal. Dos proprietários que não merecem as terras que têm. É do Estado que também não cuida da sua floresta. Dos negócios associados aos incêndios. Da Comunicação Social que tudo critica. E quando não critica. É da Ministra da Administração Interna que não foi de férias. É do Ministério da Agricultura que confunde floresta com bosques de pinheiro, eucalipto e mato, com grande densidade de espécies por hectare. É dos vários ministérios que não se coordenam. É dos militares que fizeram férias em vez de combaterem os incêndios ao lado dos bombeiros, como em Espanha. É da inércia que nos paralisa nos momentos críticos. É do Trump que não acredita nas alterações climáticas. É de quem pensa que Portugal é Lisboa e o resto é paisagem. É do verão que não sabe ler o calendário e é descuidado a sair de cena. É da chuva que tarda. E das lágrimas que não apagam incêndios. E é do fado luso, conformista.

3. Em Portugal somos céleres em procurar culpados e apontar responsabilidades. Quase sempre simples bode expiatório que nos impede geralmente de ir à raiz dos problemas. E em sequência disso, com a voz embargada pelo luto e incompreensão pelos acontecimentos, pouco contribuímos para aumentar a eficácia da nossa sociedade. A nossa exigência acaba depressa. E trocamos as medidas estruturais por pequenas gratificações e retoques conjunturais. Afinal somos de brandos costumes. Tal como somos hábeis em contornar a lei, explorando até à exaustão os buraquinhos na mesma.

Em verdade gostaríamos de ter um bombeiro atrás de cada pinheiro. Um guarda na porta de cada casa. Uma boca-de-incêndio junto a cada eucalipto. E mesmo reconhecendo que tal seria impossível, continuamos a querer. Mas não queremos limpar a floresta no inverno. Nem que nos obriguem a tal. Tão pouco desejamos um ordenamento florestal eficaz. Porque tal faria diminuir os parcos rendimentos que a floresta nos aporta.

E por isso somos adversos a políticas de planeamento regional que fixem pessoas no interior. Ou melhor, até queremos, mas como dá poucos votos a quem nos governa, porque são populações cada vez em menor número, estas acções acabam proteladas em favor de mais umas aerogares no Litoral e umas vias-rápidas nas zonas suburbanas de Lisboa e Porto.

E continua-se a gerir o território e o ordenamento do mesmo com os tostões que sobram do Orçamento. E continua-se a colocar os parcos recursos e meios no combate aos incêndios, descuidando a prevenção. Erro estratégico que nos conduziu até à presente situação.

Se calhar — digo eu — está na hora de trocarmos prioridades. Aumentar a prevenção.

E entretanto continua-se a falar da Reforma da Floresta. Continua-se, porque infelizmente nada acontece. Aliás, a História mostra-nos que quando nada se quer fazer, anunciam-se reformas profundas.  

Os portugueses, novamente de luto, apenas querem que a culpa não morra – outra vez – solteira. No entanto embarcamos numa caça às bruxas ainda a quente, e ainda com lágrimas nos olhos. Lágrimas que infelizmente não apagam chamas. E bruxas que se calhar são apenas um reflexo dos nossos medos.

4. Espero, aliás desejo, que as vidas humanas ceifadas por estes implacáveis incêndios contribuam para algo. Desejo que desta vez possamos finalmente passar das palavras aos actos. Que se faça uma verdadeira reforma do ordenamento florestal do país. Se calhar foi necessário destruirmos a maior área florestal de que há memória para podermos começar do zero?… Afinal já pouco parece restar para preservar.

E se à excepção das Áreas Metropolitanas, Portugal caminha para a desertificação e o despovoamento. Temos de saber aproveitar o momento para discutir o ordenamento do território e pensar o que queremos para o interior do país.

Resta saber se temos memória para aprender com os erros cometidos. Resta saber se há hoje ainda lugar a visionários… que nos ajudem a planear o território e o espaço luso com clarividência. Ao idêntico de Sebastião José de Carvalho e Melo que planeou a cidade de Lisboa após a tragédia de 1755. Um “visionário” que planeie o território adaptando-o aos novos tempos, às alterações climáticas. Eu conheço um. Tem 95 anos mas continua a ser um dos mais jovens e visionários técnicos do ordenamento do território português. Chama-se Gonçalo Ribeiro Telles.

Fernando Santos Marques
Colunista da Tomar TV

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia


Este é um artigo de opinião. As opiniões publicadas na Tomar TV são da responsabilidade do autor que as subscreve.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *